acabei de voltar de uma viagem quase suicida de 12 dias pra belém do pará. fui dividindo o ônibus [!!!] com cerca de 50 desconhecidos e semi-conhecidos com quem teria que conviver intensamente durante os dias seguintes; apenas pessoa uma entre todos os passageiros era minha amiga.
a decisão de fazer essa viagem foi totalmente impulsiva, impensada e arbitrária. pra mim, foi a ação mais rebelde de uma vida. rebelde para comigo mesma, para com a minha personalidade. me torturei por semanas antes da partida. "será que é isso mesmo que eu quero? será que aguento?" talvez a impossibilidade da fuga, em virtude da distância, fosse a garantia de que eu não desistiria no meio do caminho. e assim, em meio à incredulidade alheia e minha própria, parti.
durante a ida, lutei contra minha timidez e minha alergia à cigarros e aparelhos de ar condicionado. encontrar pêlos de gato perdidos no meu cobertor ajudava. dividir a poltrona com uma amiga também. eu era cordial e muda; a viagem foi longa e as palavras cruzadas preencheram meu tempo.
durante a estadia, os semi-conhecidos me cumprimentavam e os desconhecidos se perguntavam quem seria eu. já não era mais possível me esconder atrás das palavras cruzadas ou me calar; o silêncio era desconfortável e as palavras vinham atropeladas. não me permitia parar para pensar no que dizia, porque certamente me arrependeria e não ousaria abrir a boca novamente. a convivência era tranquila e já não precisava ensaiar falas - pelo menos não com tanta frequência...as risadas vinham fácil e eram verdadeiras. as piadas também. mas o medo do silêncio ainda tornava a experiência um tanto quanto assustadora. não contar com a companhia da amiga o tempo todo dificultava, a idéia de voltar sem ela aterrorizava. algumas noites eram insones e alguns pensamentos, torturantes. quando cheguei no meu limite, o dia da partida chegou.
momentos antes de entrar no ônibus, me senti perdida. olhei em volta, angustiada. me apressei a ocupar uma poltrona, qualquer poltrona; como se o gesto fosse capaz de controlar a ansiedade que sentia. e então, aos poucos, me senti rodeada por rostos e vozes conhecidos. sem que me desse conta, experimentei a sensação que me procurei durante toda a viagem, e que me fez tanta falta: o silêncio confortável. aquele momento onde a ausência de palavras não é interpretada pelas partes como falta de assunto, mas como entendimento. um silêncio que não distancia. e assim, mal senti as horas passarem.
enquanto estive fora, o cotidiano era tão diferente do meu que, com o passar do tempo, minha vida anterior ao momento de embarque parecia como um sonho. e agora, ao fim de tudo, a viagem em si me parece um sonho. as pessoas e conversas não me parecem reais. creio que essa sensação só passará quando nos virmos novamente, em outro contexto... mais... real?
por enquanto, só tenho a dizer que sobrevivi ao meu próprio desafio. ou pelo menos à primeira parte dele, já que o mais difícil vem a seguir.
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sei que esse texto é profundamente gay e expositivo [para meus padrões], daquele tipo que vai certamente me deixar constrangida daqui a alguns... minutos, talvez. mas me sinto quase obrigada a escrevê-lo, sabe-se lá o porquê.